O Lago do Esquecimento

Espero calmamente a beira do lago. Não sei o que espero, mas continuo esperando. O dia está frio. O céu nublado. Uma nevoa fina cobre as águas antes cristalinas. O dia segue em uma melancolia bela. O dia está apenas começando.

Um homem se aproxima. Sussurra algo em meu ouvido e segue seu caminho. Ou volta pelo mesmo que veio. Não sei. Não ouvi o que ele disse. Não sei se posso ouvir. Mas me lembrei o que espero. Espero o que nunca tive. Espero o que esperei a vida toda e até agora nada. Tarde demais.

Um peixe ensaia um salto, mas desiste. Faz apenas ondas na água. A água é melhor que o ar. Compartilho dessa opinião. E se eu fosse um peixe? Teria tido mais chances? Não sei. Tarde demais para saber. Cansei de tentar. Cansei de esperar. Escrevi uma carta hoje e não lembro onde a deixei. Talvez ainda esteja em meu bolso. Não sei. Não vale a pena o esforço para conferir.

O homem volta e parece insistir no mesmo. Ele não percebe que eu não ouço mais. Ele não sabe que já desisti. Até hoje mais cedo nem eu sabia. Eu o perdôo.

E mais uma vez não sei o que faço a beira desse lago. Nem ao menos sei que lago é esse! Não sei onde estou. Mariposas dançam em meu estômago. Borboletas são para jovens. O peixe repete seu movimento. Sem sucesso. É mesmo. Ele tem razão. Eu não teria mais chances se fosse um peixe. Afinal que chances teriam um peixe impossibilitado de caçar, de nadar, de retirar o sagrado oxigênio da água com guelras enfraquecidas. Retiro meu sustento, pois ainda tenho engrenagens. Por que não fiz? Por que não fui? Por que não estou mais?

O ar me falta. Ou a água? Peço, mas ninguém me ouve. Esqueceram-se de mim, ou fui eu que os esqueci? Afinal nem lembro quem sou, ou o que faço a beira desse lago que agora sei ser o Lago do Esquecimento. O lago onde todos mergulham na tentativa de serem lembrados por toda a eternidade. Mas poucos conseguem, foi o que ouvi dizer. Nunca soube de ninguém que foi lembrado para sempre. Serei eu a exceção? Será essa minha única atitude nobre que será lembrada por todo o sempre?

Mergulho. É fria a água. Perfura todas minhas células, minha consciência, até minha alma. A qual não sei se ainda existe. Não sei se a dor que sinto é por tê-la ou é pela falta dela. Alguém tenta me trazer a tona. Impossível. Eu não quero. É meu ultimo desejo. Que pelo menos esse seja concedido. A água antes fria agora se torna flamejante ao penetrar minhas vias respiratórias e preenche meus pulmões. Meu coração enfraquecido luta pela sobrevivência. Infelizmente temos pensamentos diferentes. É uma pena.

Parou! Não respiro! Não tenho pulsos. Tenho apenas memória que antes não havia. Lembro-me de tudo! Lembro-me de abrir os olhos.

E abro! Estou ainda a margem do lago. O peixe ensaia seu movimento e dessa vez pula. Ele não desistiu.

A névoa cobre o lago. O Sol não vai aparecer hoje. A melancolia permeia pelos ares, entra pelos meus pulmões e preenche minha alma. Espero mais uma vez a vinda do que nunca veio.

(02/07/2008; ao som de Weird Fishes/Arpeggi – Radiohead)

~ por Paulo Victor Recchia Gomes da Silva em Julho 20, 2008.

6 Respostas to “O Lago do Esquecimento”

  1. Que texto lindo. Você deveria estar muito inspirado quando criou-o. Parabéns!

  2. Muito obrigado, Helenna! :)

  3. Muito bonito o texto. Parabéns…

  4. Muito obrigado, Marina! :D

  5. Esse texto nao devia se chamar lago do esquecimento e sim relato de um suicida…….gostei da ideia,bem original.Continue escrevendo bjs

  6. Nossa… estava esperando ler no final do texto o nome de algum autor de outro século!!! rsrs =) Parabéns pelo dom!

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