Um Esboço de Sentimento II

ou Bom dia por quê? (Da série Parágrafos Desconexos)

Quando você menos espera, tudo começa a dar errado. Quando eu achava que finalmente iria ter sossego e conforto, o mundo resolveu aumentar sua velocidade de rotação (licença poética, desculpem-me) e desequilibrou todo mundo. Todos (ou quase todos) se levantaram e, pra variar, eu não.

Se tem uma coisa que me incomoda é não entender tudo que acontece ao meu redor. Não sei se é meu espirito cientista falando mais alto ou apenas uma necessidade de fazer parte de tudo, mas não é a primeira vez que isso me atrapalha e também não será a última. Eu odeio quando minha cabeça começa a funcionar demais. Só tenho que aceitar que nem sempre tudo é como a gente espera.

Sempre nos ensinam a olhar para as coisas boas da vida, mas fica difícil quando as únicas coisa que vemos são a Ironia e o Sadismo da nossa própria existência.

Depois disso, volto pra minha monografia que, por bem ou por mal, precisa ser escrita.

Os Ventos de Junho

Alento para o dia quente, os ventos de Junho, estranhamente presentes no final desta tarde de verão, mostram que nada mais é como antes. “Mas por que minha mente quer permanecer a mesma?”

O vento faz balançar a persiana do escritório. Resolvo sair e fazer parte desta tarde pouco comum. Observar o sol se pôr, e deixar a cidade na escuridão, é indescritível. O vento ajuda a levar para longe as poucas nuvens restantes de horas anteriores, como que forçando a tarde a durar mais. Mas ela será longa de qualquer maneira, afinal é uma tarde de Dezembro.

“Oh, doce Vento do Sudoeste, faça-me um favor: leve meus pensamentos para longe, mas permita que um pouco de Vida permaneça, para que tudo continue mudando.”

Originalmente em 30/12/2010 (Itapira, São Paulo)

Um novo começo

Por mais que pareça clichê, eu gosto dos fogos de artifício na virada do ano. Tá bom que é apenas mais uma volta (ligeiramente incompleta) ao redor do Sol, mas ainda é a comemoração por termos sobrevido por mais um ano nesse planeta.

Eu acredito que toda essa festa simboliza uma Vitória conquistada lentamente ao longo do ano todo, ou pelo menos alguns minutos para juntar forças para uma nova batalha. Eu não acredito em Paz mundial da noite pro dia e em nada vai adiantar todo mundo se vestir de branco se no dia seguinte vão esquecer todas as promessas feitas na Grande Virada e voltar pra suas vidinhas. Talvez toda essa comemoração apenas coloque luz na hipocrisia do ser humano.

Mas apesar de tudo isso, encaro aqueles poucos minutos que todo o céu fica iluminado com várias cores como um momento de reflexão e de fato uma esperança cresce em meu peito. Eu sinto muito em dizer adeus para 2010, pois foi um grande ano para mim (ainda mais comparado com a merda que foi 2009) e terei ótimas lembranças desse ano. No entanto é necessário seguir em frente e fazer o possível para que 2011 seja ainda melhor. E esse dever começa logo no dia 1º, embora este seja um dia estranho, repleto de restos da virada e do cheiro do ano que se acabou. É neste cenário que aperecem coisas que não deveriam ser ditas, muito menos ouvidas, fazendo com que o primeiro esforço de fazer o novo ano um bom ano ir por água a baixo.

Proponho que o 2º dia do ano seja realmente o 1º dia onde possamos ser nós mesmos em nossas próprias vidas e que neste dia os esforços valham alguma coisa. E que o 3º dia também seja o 1º e que as esperanças ainda existam.

Se os minutos finais de um ano fazem com que todos olhem para as atitudes tomadas ao longo deste, então proponho que todos os minutos inicias de todos os dias de um ano que se inicia seja com os minutos finais de um ano já cansado, para que não deixemos um pedido de desculpas para quando este não surtir mais efeito, ou uma resposta para quando a pergunta não mais existir e o arrependimento tomar conta daquilo que somos.

Feliz Ano Novo! Feliz 2º dia do ano!

Paulo Victor Recchia Gomes da Silva

Meu cachorro e a galinha do vizinho

De vez em nunca meu cachorro tem um surto de coragem e tenta mostrar serviço. Hoje seu alvo foi a galinha do vizinho. Antes vou tentar explicar como é o meu quintal.

O meu quintal faz diviza com um terreno que tem um galinheiro montado ao redor de uma amoreira. Em vez das galinhas dormirem dentro do galinheiro elas sobem nos galhos e muitas vezes tentam se aventurar no muro, andando de um lado para o outro. Entretanto, algumas delas acabam indo além e vem no meu quintal e sempre conseguem voltar. Só que hoje a galinha devia ser mais novinha e não conseguiu. Desconfio que ela tenha vindo parar desse lado do muro na noite passada.

Agora vamos falar do meu cachorro, que responde pela alcunha de Luck. Ele tem o hábito de ir fazer suas necessidades no quintal pela manhã e mijar por todo o muro. De manhã ele não fez nenhum alarde indicando que ela estivesse por aqui. Por volta das 10h da manhã eu notei que ela estava tentanto pular de volta para sua casa. Se ele viu ou fez que não viu não sei dizer (por exemplo, ele corre atrás de gatos quando sabe que tem alguém olhando para ele, caso contrário ele deixa passar, ou dá uns latidos no máximo), mas foi só as 15h30 que ele deu pela presença da galinha (observação: minha mãe estava junto com ele).

Pronto, estava armada a bagunça. Ele corria pelo quintal todo atrás dela latindo e a coitada gritando. Fiquei vendo o show por uns 5 minutos e acabei ficando com dó da galinha e tranquei o cacharro para tentar salvar as penas da coitada (não que eu achesse que meu cachorro iria matá-la, mas é bom evitar).

Agora a missão era pegar a galinha. Fiquei correndo atrás dela para ver se ela conseguia pular o muro, mas nada, era muito alto para ela. Foi então que ela encontrou um esconderijo: bem no fundo do quintal tem uma área cercada por telhas, onde tem restos de areia e um pé de boldo “gigante” (essa é outra história). Eu assustava a galinha para ela sair de lá, mas sempre acabava voltando. Acabamos chamando um senhor, de mais de 60 anos, que estava trabalhando no quintal de origem da penosa. Ele começou a subir na amoreira e a andar pelo muro e passou para o muro do fundo do quintal (esse muro faz diviza com o estacionamento da Santa Casa de Misericórdia. Nota: tem um barranco entre a base do muro e o estacionamento.) Ele ficava falando:

“Atropela ela pra ver se ela pula.”

“Eu já tentei isso”, respondi, “ela não consegue.”

“Pode atropelar.”, insistia, até que ele dicidiu descer do muro.

Minha mãe ofereceu uma escada mas ele insistiu. Só que um tijolo do topo do muro começou a se mover e quase que o velho cai pro lado do hospital. Tenso. Mas ele conseguiu vir pro lado certo.

Ficamos então os três correndo atrás da galinha até ela ficar encurralada em algum canto e o velho poder pegar ela.

Nesse momento eu já estava até mancando de dor no joelho (isso não é muita novidade ¬¬’ ) e velho ainda insistiu em pular o muro mais uma vez!

Ele disse que ia cortar as asas dela.  De fato, alguns minutos depois era possivel ouvir de casa os berros.

Moral da história:

(i) Quando quer, meu cachorro consegue ser um cachorro;

(ii) O velho tem mais saúde que eu. XD

Il Vecchio al tavolo

Foi quando ninguém ouviu sua voz que ele se deu conta que não era mais o mesmo, de que não era mais importante. Sempre fora ativo e importante na sociedade e sobretudo na família. Mas os tempos passaram, gerações novas estavam presentes com novas idéias, novas éticas e métodos. E era isso que mais o atingia: novos métodos! Os seus sempre foram mais eficazes, mais ilustres, um modelo a ser seguido. Não havia mais lugar para ele naquele espaço.

“Asilo? Talvez lá alguém me ouça.”

Sentiu-se como uma criança, mesmo sentado na ponta da mesa, local de onde governou por mais de 60 anos.

(24 de abril de 2010)

Do you understand?

What I am going to tell you about is what we teach our physics students in the third or fourth year of graduate school – and you think I’m going to explain it to you so you can understand it? No, you’re no going to be able to understand it. Why, then, am I going to bother you with all this? Why are you going to sit here all this time, when you won’t be able to understand what I am going to say? It is my task to convince you not to turn away because you don’t understand it. You see, my physics students don’t understand it either. That is because I don’t understand it. Nobody does.

Richard P. Feynman – QED: The Strange Theory of Light and Matter (1985)

“Who are you?”

Em seu livro The God Particle : If the Universe is the Answer, What is the Question? (veja no GoogleBooks), Leon M. Lederman (Prêmio Nobel de Física em 1988), mais especificamente no inicio do Capítulo 9, conta uma história no mínimo hilária sobre o que aconteceu uma vez em um trem:

Several years ago, on Manhattan’s IRT subway, an elderly man sweating over an elementary calculus problem in his textbook turned in desperation to the stranger sitting next to him, asking if he knew any calculus. The stranger nodded yes, and proceeded to solve the man’s problem for him. Of course, it’s not every day that an old man studies calculus next to the Nobel Prize-winning theoretical physicist T. D. Lee on the subway.

I had a similar train experience, but with a different ending. I was sitting on a crowded commuter train out of Chicago when a nurse boarded, leading a group of patients from the local mental hospital. They arranged themselves around me as the nurse began counting: “One, two, three -” She looked at me. “Who are you?”

“I’m Leon Lederman”, I answered, “Nobel Prize winner and director of Fermilab.”

She pointed at me and sadly continued: “Yes, four, five, six…”